5 Star review in Portugal’s premier newspaper ‘Expresso’

Começando pelo século XVI, é gratificante ouvir um disco dedicado à música ibérica por um grupo australiano (fundado em 1997), La Compañia, para mais sob o signo da Rádio e Televisão Pública Australiana (ABC). Há semelhanças com o disco do Huelgas Ensemble ( d. Paul Van Nevel), editado pela Sony aquando da Lisboa-94, mas as fontes (e as execuções) são muito diferentes. Enquanto a base para o “Ay Portugal” é o “Cancioneiro de Paris”, provavelmente compilado por Pedro de Escobar (c. 1465-d. 1535) — um português membro da Capela Real de Isabella I e que, mais tarde, operou na catedral de Sevilha —, a fonte do Huelgas é um codex da catedral de Oaxaca, México. Entre os itens em comum está o notável ‘Botay fora’, de Gaspar Fernandes (c. 1570-1629), que dá o nome ao disco: “Botay fora do portal pastores não canteis vos que os musicos de Deus an de ser de Portugal ay Portugal.” Temas instrumentais alternam com outros cantados (pelo soprano de voz límpida Siobhan Stagg, vencedora do Australian International Opera Award 2012). E se é verdade que os ritmos festivos cadenciados se repetem, também há números lamurientos e melancólicos (por exemplo, o anónimo ‘Dipues vienes delhaldea’) e outros (como a ‘Fantasia VIII’, de Luís de Milán, c. 1500-1561, dedicado a D. João III) que se ajustariam bem a um fado! O diretor, Danny Lucin, encarrega-se dos cornetti (às vezes, com arroubos jazzísticos), e Rosemary Hodgson dedilha a vihuela com terrífica virtuosidade. Dos compositores representados, o único que se quedou em Portugal foi Pedro de Cristo (c. 1540-1618); Gaspar Fernandes ( maestro da capilla na catedral da Guatemala e, mais tarde, de Puebla, no México, onde morreu) não  desdenhou pôr em música o crioulo: ‘Tieycantimo choquiliya’. Um disco a não perder, tanto mais que o fado português é uma série de ais, como se vê pela atual situação política e cultural.

Jorge Calado